textimagens - rosaura soligo

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

o fim do mundo é um buraco sem fundo

leonardo soares


A verdadeira (breve) estória do cemitério mal cheiroso 
aflorando ossos na Grande São Paulo

Morreu jovem, quase sem dor, escorreu do olho, chovia tristeza. A mãe do mais velho saiu pela rua, andando depressa, infeliz aperto, comprou camisa, calça, sapato, vestiu o filho bem vestido, último traje, fato derradeiro. As economias do mês: geladeira, a prazo, água gelada, luz para todos, flores enfeitando o salão. Sombria despesa. Boi! Olho brilhoso pasta no pasto, indiferente, galinha cisca o chão do terreiro, espora de ouro, briga de rinha, oração. Calça azul, jeans Arizona novo reluz azul do céu de Agosto.
Vigília noturna, as velas ardendo, fogo preguiçoso, saudade desperta, fundo d’alma, singelo funeral, chinelo de dedo, sem flores de coroa, sem última canção, sem brasa cremação, gastos distantes.
Triste desfecho, ingrata notícia, retrato nuvioso, paisagem decorada, escuro medonho. A lâmina da Patrol serrou ao meio a sepultura de Jeová, Jonas e o irmão do meio, os restos mortais ao rés do chão, rostos sem carne, caveira sem expressão, sorrindo manhã de sol, a roupa envelhecida de tempo pendia da terra vermelha úmida, calça jeans Arizona enfeitando a cova profunda rabiscada pelo trator da prefeitura.
Esqueleto amputado, perna de pano azul, carniça o céu de Francisco, São Paulo, a morte acordada, sono profundo, derradeiro repouso, despertador de defunto, Prefeito Kassab, fúnebre varal, cova rasa, osso arado, assombração na encruzilhada do Capão, alma penada despida flutuando insone na imaginação do leitor do amaldiçoado periódico da Barão, dos barões, de Limeira, dos brancos burgueses da gélida capital Paulista. [leonardo soares]
 http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1084886-cemiterio-tem-area-com-mau-cheiro-e-resto-de-ossos-na-grande-sp.shtml 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

agradecimento

Agradecemos a todos pelas trinta mil e tantas visitas nestes dois anos.
É o olhar de vocês que aquece o nosso desejo de seguir criando outras possibilidades de olhar.
   








http://www.youtube.com/watch?v=YOFyJ82zrX0  

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

terceira margem

leonardo soares







ele 
não tinha ido 
a nenhuma parte. 
só executava
 a invenção 
de se permanecer 
naqueles 
espaços do rio, 
de meio a meio...
[Guimarães Rosa]

sábado, 24 de novembro de 2012

de passagem

leonardo soares









quando 
as águas 
pensam 
muito
chamam-se 

espelhos.
[Boaventura de S Santos]

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

pobres ruas

apu gomes

Pobres ruas, sempre no seu dorso o peso
dos corpos, das rodas,
dos líquidos, chorumes
risadas, queixumes.
Dos mortos ainda vivos, dos vivos já quase mortos
Os rumos, as rotas, os passos.
Humanos, desumanizados
Desgraçados, abastados
Doutores, ambulantes
Surfistas errantes.
Pobres ruas, braços das paradas dos ônibus
Paradas que, sempre em movimento,
mastigam tormentos, vomitam histórias ou assuntos repisados.
Pobres ruas condenadas a viver fora do abrigo
Dando abrigo ao inimigo, à poeira e ao veneno excretado pelas máquinas 
que ferozes as devoram mesmo sem as engolir.
Pobres ruas mães insones, não conseguem repousar
E ficam sempre acordadas, não porque os filhos demorem, mas porque os vê chegar.
Prostitutas, viciados, franciscanos, exilados.
Bandidos, ladrões, alijados de afeto e de calor,
de esperança e de respeito, e não têm outro jeito que não, o de na rua amar,
a tudo que é desprezado, que é torto que é jogado, no solo, na boca da rua,
que é veia, que é rio, que é viva e alimenta,
o pesadelo ou o sonho de viver e de lutar.
Não importa o que escoem, há sempre um preço a pagar.
Pobres ruas projetadas pra viverem abertas aos céus
Que se fazem passarelas das estrelas e do brilho que a lua faz deitar
em seus cantos, becos, prantos que nelas vem se abrigar.
Pobres ruas, colo da chuva banhado pela enxurrada,
no final da madrugada sonham de lado virar
e se entregar ao repouso, sem gritos, sem latejar.
Mas vem o sol lhes bater, e recomeça a história que elas têm de escrever
História de muitas vozes
Que não podemos ouvir
Que não conseguimos ler.
[Vilma de Lourdes Campos]

apu gomes

terça-feira, 20 de novembro de 2012

devir

rosaura soligo






mas não! 
não é esse 
o destino 
unicamente. 
o inaudito, 
avesso doce 
que ele pressente 
e ela jura existir, 
se esconde bem ali 
sob seu passo 
só que 
em outro sentido.

terça-feira, 13 de novembro de 2012